sábado, 25 de junho de 2011

Ficar


Acho que meus leitores, já devem ter percebido o quanto a pessoa que vos fala é observadora. Para mim, observar é uma arte e eu prático essa arte constantemente.
Um dia desses, em uma de minhas observações cotidianas, pude perceber o quanto o sabor da conquista, o cortejar, até mesmo o enamorar-se, se perdeu com a juventude. Tantos os homens já não sabem como ter essas atitudes e nós próprias, mulheres, também já não sabemos como esperá-las ou despertá-las. Talvez por acreditar que os homens já não sejam mais capazes de praticá-las.
Pois bem, estava eu apreciando a noite sentada na calçada, com o hábito bem antigo que nós cearenses temos, e que graças a Deus, nós que moramos em cidade pequena ainda podemos manter esse costume, pois a violência ainda não chegou ao sertão na mesma proporção das cidades grandes.
Estávamos no grupo só de meninas, dentre essas meninas havia uma adolescente que estava à espera do seu paquera, para consumar a “paquerise” no ato de ficar. Quando, inesperadamente, o garoto chega a companhado de outro colega. Então comecei observar a maneira como o garoto e garota se comportavam.
Provavelmente eles nunca haviam conversado antes. Talvez tenham se conhecido em uma situação inesperada, e por terem um amigo em comum, a paquera foi adiante. Então, como é de costume entre os adolescentes, eles simplesmente não trocaram uma palavra, nem ao menos um cordial, boa noite.
Notava-se então, que os adolescentes estavam completamente intimidados com aquela situação, e para completar o quadro de constrangimento, ainda havia os amigos dos dois falando um monte gracinhas, o que os deixavam ainda mais embaralhados.
Então eu fiquei a imaginar o que na verdade, eu queria que acontecesse caso eu estivesse na pele daquela adolescente. Ou mesmo o que seria o certo a fazer. Pois, o que acontece atualmente, pelos menos sob o meu ponto de vista, é que, tanto os adolescentes ou até mesmo nós, que fazemos parte da juventude e nos consideramos maduros, é que na verdade temos medo. Medo de conversar, medo de falar sobre a gente, medo de conhecer a outra pessoa, medo de parecer idiota, ou coisa desse tipo.
Dessa forma, conhecemos alguém interessante, por quem nos interessamos, primeiramente pela aparência, depois, conforme for à ocasião é feita as apresentações e logo em seguida, sem que tenha acontecido ao menos uma conversa mais profunda, já rola o primeiro beijo ou até a primeira relação amorosa, dependo dos valores do casal. Só gostaria de esclarecer que, não estou defendo aqui uma visão conservadora de relacionamentos, que isso fique bem claro. Apenas, estou constatando a morte ou a extinção de algumas etapas dos relacionamentos, que, praticamente foram abolidas, e que particularmente, são essenciais para todo relacionamento, independente de ser apenas um fica sem compromisso ou um fica mais sério.
Assim, ocorre o primeiro “fica”, sem que o casal tenha de fato conhecido ao menos um pouco um do outro. Porque na verdade, eu tenho uma tênue impressão que, para juventude não importa se a pessoa é interessante, ou se é uma pessoa bacana e de princípios. O que importa é, como se fala, se a pessoa tem “pegada”. Sim, pegada. Traduzindo: se o cara ou a menina tem um beijo bom ou se sabe mesmo “arrochar”, como se fala aqui no Ceará.
Então passada essa prova, se o menino ou menina tiver realmente a “pegada”, provavelmente haverá uma segunda “ficada”, caso contrário eles nunca mais voltaram a conversar e muito menos ficar de novo.
O lamentável de tudo isso é que muito se perde da conquista, do conhecer o outro, do decifrar aos pouquinhos o seu objeto de desejo. Simplesmente, eles ficam. Acho que tudo isso pode ter uma explicação, na pressa. Pressa que a juventude, e principalmente, os adolescentes, tem de viver. O que importa na verdade, além da “pegada”. É os números, a quantidade e não a qualidade. Falo isso baseada em experiência própria. Eu já fui uma adolescente, e meu maior objetivo era aumentar meu número de “ficantes”, para fazer inveja as minhas amigas.  É claro que eu mudei minha concepção de relacionamentos. Mas, muitos jovens ainda pensam assim.
Dessa forma, eles vão ficando com uma pessoa hoje, outra amanhã e assim vai. Vai também para o esquecimento muito do romantismo, e de outras práticas que dão um sabor mais que especial da conquista.



Um comentário:

  1. É realmente nos mulheres vivemos um duvida terrivel.. Mas muito bom esse seu texo assim podemos perceber o que devemos pensar sobre cada ato para que possamos entender ..
    Beiijos =).

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